A REABILITAÇÃO URBANA NA CIDADE DE MONTIJO
COMEÇA MAL?
terça-feira, 18 de novembro de 2014
sábado, 15 de novembro de 2014
Eu sei, Regina, eu sei...
sábado, 6 de setembro de 2014
A Feira do Porco 2014
ACÁCIO
DORES, A MONTIAGRI
E A
FEIRA DO PORCO
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| A 22.ª Feira Nacional do Porco decorrerá, em Montijo, entre os dias 26 a 28 de Setembro, no recinto da Montiagri |
A 22.ª Feira Nacional do Porco
decorrerá, em Montijo, entre os dias 26 a 28 de Setembro, no recinto da
Montiagri, também denominado Centro de Exposições (Acácio Dores?). Ainda não
houve grandeza dos autarcas para isso.
Segundo a Federação Portuguesa
de Associações de Suinicultores (FPAS), entidade organizadora, «a edição deste evento reunirá no Montijo
toda a fileira da carne de porco, desde a produção de alimentos compostos para
animais até à indústria de abate e transformação, passando pela produção e
actividades afins (genética, consultoria, laboratórios de análise, fabricantes
e distribuidores de produtos médico-profiláticos, projetistas, fabricantes de
equipamentos, etc).»
A FPAS regista a rápida adesão
das mais importantes empresas sector o que permitiu que em quatro semanas se
tenha esgotado a capacidade do “Pavilhão Profissional”.
A Feira do Porco foi
instituída, em 1986, pela Câmara Municipal de Montijo em colaboração com a FPAS.
Com a realização da feira, o
executivo de coligação PS/PSD, liderado por aquele partido, punha termo à
Montiagri- Feira Industrial, Comercial e Agro-pecuária de Montijo, optando pela
especialização do evento.
Esclarecia a autarquia que «a feira, sob a liderança de Mendonça
Tavares, Presidente da Comissão Executiva, será específica do porco e abrange
todos os aspectos técnicos inerentes ao seu ciclo de produção, comercialização,
industrialização, consumo e, consequentemente, à sua manutenção higiénico-sanitária.»
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| A FPAS regista a rápida adesão das mais importantes empresas sector o que permitiu que em quatro semanas se tenha esgotado a capacidade do “Pavilhão Profissional”. |
Desde então, a Montiagri tem
hospedado regularmente a Feira Nacional do Porco, isto é, a Feira do Nacional
do Porco realiza-se, em Montijo, porque existe o recinto da Montiagri e devido
ao empenho inicial de Mendonça Tavares e Primo Jaleco, então Presidente da
Câmara Municipal.
O recinto da Montiagri patenteia,
hoje, uma pálida ideia do que foi.
Após 17 anos de gestão
socialista, o recinto foi transformado em local de armazenamento de sucata e de
oficina municipal, sem qualquer resguardo ou projecto para a sua adaptação às
novas funções. E tão degradado está o recinto, que a Feira do Porco já correu
sérios riscos de ali se não realizar.
O PS começou por ser um estrénuo
crítico da realização da Montiagri, mas acabou por revelar que, afinal, não
tinha qualquer projecto para aquele recinto – nem para o Concelho.
Foi na reunião
da Câmara Municipal de Montijo, de 17 de Setembro
de 1980, que Acácio Dores, então Presidente da
Câmara Municipal, apresentou a proposta da empresa ARTISOM para a realização de
uma grande mostra das actividades industriais, comerciais, agrícolas e
pecuárias do concelho, a concretizar-se, pela primeira, no ano seguinte.
A
proposta, que tinha por suporte «as
elevadas potencialidades económicas do concelho e a projeção que uma grande
feira poderá dar ao nome de Montijo, tanto a nível nacional como
internacional», foi aprovada com os votos favoráveis da APU e do PSD e a
abstenção do PS.
Na
mesma reunião, foi nomeada uma Comissão Executiva, constituída pelo vereador em
regime de permanência, Eng.º Rogério Cordeiro, pelo Chefe dos Serviços
Técnicos, Eng.º Maldonado Pires; pelo Tesoureiro Municipal, senhor Custódio
Moreira e pelo Chefe dos Serviços de Higiene e Limpeza, senhor Manuel Mourato.
Em
comunicado à população, a câmara municipal elucidava que «Para demonstração cabal e expressiva das verdadeiras potencialidades
do nosso concelho, da capacidade de iniciativa e espírito empreendedores dos
seus naturais, vai realizar-se, por iniciativa desta Câmara, de 17 a 28 de
Setembro do próximo ano, a MONTIAGRI/81 – 1.ª Feira Industrial, Comercial e
Agropecuária do Montijo, que constituirá uma verdadeira mostra das actividades
laborais da região.
Pretende-se assim demonstrar, pela projecção que se
pretende ar à MONTIAGRI/81, o Montijo de hoje – o Montijo moderno,
industrializado e já com um grande peso na economia nacional, em suma, o
verdadeiro Montijo.»
Para
a edificação da feira, previa-se, então, um investimento de 10 164 093$00 e uma
receita de 4 045 900$, sendo os investimentos recuperáveis no valor de 8 235
690$00, donde resultaria um saldo positivo de 1 977 403$00.
Inicialmente, a instalação da feira
esteve prevista para um terreno com cerca de 1,5ha localizado no topo norte da
Avenida Luís de Camões, mas a câmara municipal acabou por adquirir outro, junto
à Praça de Touros, com 4 ha, onde efectivamente se construiu a feira.
A aquisição daquele terreno consolidou a ideia da
realização da 1.ª Feira Industrial, Comercial e Agropecuária de Montijo, e, por
outro lado, dotou o local de infra-estruturas, que se revelaram úteis a realizações
futuras, mormente, à chamada «Feira da Ervilha.»
A MONTIAGRI/81, em si, acabou por ocupar uma área
total de exposição de cerca de 34.00 m2, que acolheu 140 stands cobertos, uma
área coberta com cerca de 1.800 m2, onde foram implantados 64 stands, um pavilhão
para exposição de animais e toda a gama de produtos de alimentação e apoio
médico-sanitário à pecuária e cerca de 5.000 m2 ao ar livre, para maquinaria
pesada (máquinas e alfaias agrícolas, camiões, empilhadores, etc.), cerâmica e
pré-fabricados. A área livre da feira, composta por arruamentos e zonas verdes
ocupava cerva de 16 576m2.
A feira dispunha de serviços de apoio, mormente, de
Secretariado, do Posto dos CTT, Sala de Colóquios, Restaurante e Bar.
Ultrapassando as melhores expectativas, a Montiagri –
1.ª Feira Industrial, Comercial e Agropecuária de Montijo, a única
no género no Distrito de Setúbal, como reconheceu o Governador Civil, recebeu 157 expositores, representando actividades tão
diversas como a agro-pecuária, a cortiça, serviços, material para a
agricultura, mobiliário e decoração, construção civil e indústrias diversas, e
60.000 visitantes.
O anúncio da realização da feira deu azo a um
acalorado debate, em Montijo.
Augusto
Barbosa, que o assinou com o pseudónimo Aldeano, defendeu, nas páginas da
Gazeta do Sul, que a MONTIAGRI vinha com um atraso de
20, de 30 ou
40 anos, e que «a
or-ganização de uma Feira-Exposição nos moldes em que se
anuncia a MONTIAGRI/81 devia ter-se processado
a partir do momento em que Montijo começou, efectivamente, a pesar na balança económica do País pelas suas
realizações em vários sectores, dos quais se destacam, como sabemos, as carnes, a cortiça, a cerâmica, etc.»
Por outro lado, reconhecia que «as
exposições, do género da Montiagri não se costumam fazer apenas para mostrar que as
coisas existem, que os industriais estão
cá, que as empresas atingiram já, algumas,um desenvolvimento notável, mesmo de
nível CEE — caso Isidoro
— etc., mas devem traduzir uma finalidade
útil que se desdobra, pelo menos, em duas direcções: a
de permitir uma «informação» viva e actuante sobre os sectores em exposição, e a de conseguir, pelo
conhecimento mútuo, a abertura de novos
horizontes a uma colaboração que, por um lado, se impõe nos modernos rumos da actividade económica e, por
outro, económica e, por outro lado, pode resultar num dado de importância para o crescimento económico das
actividades interessadas e da região em que as mesmas se implantam.»
E concluía o articulista: «Parece-me necessário e conveniente que esta realização, importante e
significativa, seja encarada como
«realização comum», como mostra colectiva das potencialidades do
concelho, e nela se não venham a encontrar
quaisquer motivos que por isto ou
por aquilo se prestem à especulação política,
em que somos danados.
O que se torna imperioso, e útil, é que realizações deste tipo façam escola, e se repitam, na condição de que, real e efectivamente, se repercutam
como acções dinamizadoras tendo em vista
o crescimento, não apenas do PIB, mas do bem-estar da comunidade. Que é coisa diferente do mero crescimento da
economia.»
Os
propósitos enumerados por Augusto Barbosa acompanhavam os princípios e os
trilhos que a realização da Montiagri previa seguir, porque, como declarou o seu
instituidor, Acácio Dores: «A MONTIAGRI existe
porque convicta e honestamente pensámos que a valia do nosso concelho no
quadro da economia portuguesa legitimaria a existência duma feira em Montijo e
que essa feira poderia ser um instrumento muito útil para um maior
robustecimento e expansão das actividades
económicas do concelho, com todos os benefícios daí advenientes para os trabalhadores
e empresas. Sempre pensámos que não devia haver qualquer divórcio entre a
Autarquia e os agentes económicos e que a MONTIAGRI poderia ser exactamente a
ponte entre as duas partes. É evidente que sem a cooperação dos empresários
montijenses dificilmente a MONTIAGRI poderá vir a ser o instrumento que
idealizámos. Caberá aos nossos empresários reflectirem e imbuírem-se de
espírito cooperante para que as suas empresas possam ter a dinâmica e o
progresso consonantes com os seus próprios interesses.»
A
realização da MONTIAGRI/81 não foi também um acontecimento pacífico.
«Por
razões até curiosamente contraditórias, a iniciativa não concita a opinião
favorável da unanimidade dos nossos conterrâneos. Uns vêem nela uma manobra de
oportunismo político, porventura de sinal conservador e pendor capitalista;
outros uma forma de despender o já tão escasso dinheiro municipal, senão inutilmente
pelo menos com prejuízo de outras obras mais necessárias para a população; e há
ainda quem a critique depreciativamente sem qualquer razão, só porque ela
existe.
Mas a divergência
de opiniões, salutar e encorajadora, sobretudo quando aceite de consciência
tranquila, como um desafio que se assume em prol da comunidade.» Reconhecia,
assim, Acácio Dores o percurso da Montiagri, em vésperas do acto inaugural.
Entre
as vozes polémicas que se levantaram contra a realização da Montiagri avultou a
do Partido Socialista, que afirmou: «Embora se considere interessante a
iniciativa de criar no Montijo uma feira agro-industrial (Montiagri),
consideramos que as condições financeiras do Município não nos permitem
satisfazer, ao mesmo tempo, determinados caprichos, próprios de uma
administração de direita ou liberal, e completar as infra-estruturas primárias
dos bairros da periferia da Vila e zonas rurais.
Em comunicado, reforçava as suas críticas afirmando
que «O Partido Socialista considera que a
maioria APU na Câmara, em colaboração com as forças de direita, investiu
dezenas de milhares de contos, em prejuízo das populações mais carenciadas.
Estamos certos que a estratégia seguida pela A.P.U., em colaboração com a
direita democrática, não vai ao encontro das primeiras necessidades do
concelho, pelo que a sua conduta não pode merecer o apoio das classes
trabalhadoras.»
Porém, face ao êxito que se adivinhava, os socialistas,
pela pena do seu presidente concelhio, José Bastos, emendaram o discurso e
reconheceram que: «Nós
socialistas não desconhecíamos que a Montiagri ia ser um êxito, pois conhecemos
bem as potencialidades do concelho, isto é tanto verdade, que fomos nós que
alvitrámos que a feira se fizesse naquele local, quando o Sr. Presidente nos
propôs um outro local com menos de 1,5ha.(…).
Tínhamos dúvidas
isso sim, era se tudo ficaria pronto a tempo da feira funcionar em Setembro, o
que foi conseguido graças à vontade política tanto do Sr. Presidente da Câmara,
como dos seus colaboradores mais próximos. (…).
Agora que a feira é
um facto consumado e o dinheiro está gasto, julgamos que a feira tem que
continuar, pois constitui um factor de progresso para as actividades económicas
do nosso concelho.»
Isto
é, a Montiagri passara a ser encarada pelos socialistas como « factor de progresso para as actividades
económicas do nosso concelho.»
A
MONTIAGRI, se agitou de um modo são o tecido social e económico do concelho,
perturbou vivamente as mentes mais conservadoras e paroquianas, que se
atemorizaram com a inovação e a grandeza do projecto idealizado e concretizado por um comunista, porque vinha
baralhar a aritmética eleitoral, atendendo à boa recepção da população em
geral.
Isto
mesmo confessava o presidente da comissão política do PS de Montijo: «Para sermos francos temos que dizer que não
compreendemos a razão da opção do Sr. Presidente da Câmara, que sendo de
filiação partidária comunista, entusiasmou-se por um projecto que nem de perto
nem de longe se coaduna com a ideologia do seu partido, defesa das classes mais
desfavorecidas.»
Do
lado social-democrata levantou-se a voz de José Henrique Cardoso para quem a
MONTIAGRI foi «brilhante e lamentável, um
atentado aos direitos dos cidadãos. Como industrial sinto-me encantado, como
munícipe e autarca estou absolutamente contra.»
Opinião
diferente expressou o empresário Manuel Paiva: «Só tenho a
louvar esta bela iniciativa. Congratulo-me como comerciante e sobretudo como
montijense que sou, por tão louvável empreendimento.
Foi uma ideia
arrojada, direi até atrevida – passe o termo – mas que beneficiou todos os
habitantes, mas principalmente os comerciantes da minha terra.
Sinto-me
regozijado e volto a louvar a audácia e a coragem desse homem que meteu ombros
à melhor coisa que aconteceu no Montijo nos últimos anos.
A Montiagri
chegou na hora exacta e é uma realidade de que todo montijense se deve
orgulhar.»
Entre
a saudável polémica e o aplauso popular, o jornal Gazeta do Sul endereçava os
parabéns ao «Presidente da Câmara do
Montijo, Sr. Acácio Dores, o principal impulsionador desta realização.
Conseguiu, em nosso entender, o objectivo principal a que se propunha a
Montiagri/81 – revelar toda uma potencialidade económica do Concelho.
Pode dizer-se que a
Feira partiu do nada para chegar a esta imponência que está diante dos nossos
olhos.»
Anos
mais tais tarde, ao ser entrevistado, Acácio Dores reconheceu:
«Há uma obra feita no meu mandato que me deixa satisfeito: a Montiagri,
feira agro-pecuária, comercial e industrial do Montijo.
Foi idealizada e construída neste mandato, houve que fazer toda a rede de
saneamento e os arranjos em volta. A feira foi inaugurada em 1981 e convidámos
para presidir à cerimónia o então Presidente da República, António Ramalho
Eanes. Ele não quis vir à inauguração mas foi visitá-la mais tarde. Acho que
foi o primeiro Presidente da República a visitar o Montijo.
A Montiagri foi uma ‘pedrada no charco’. Na altura eram poucas as localidades
com feiras deste género e nós apostámos naquele pólo de desenvolvimento porque
fazia falta num concelho com grande importância ao nível da cortiça, da
agricultura, da suinicultura, da transformação de carnes, da cerâmica de barro
vermelho, e do fabrico do pré-esforçado.
Foi uma
obra bastante importante e a prova disso é o facto da Montiagri continuar a
ser, nos dias de hoje [2002], um ponto de referência nacional.»
A pena brilhante do Dr.
Avelino da Rocha Barbosa, que tão cáustica tinha sido para com a Montiagri, sintetizou,
assim, o evento:
«A MONTIAGRI/81 passou por esta terra como um furacão.
Desencadeou aplausos, júbilos, euforias, dúvidas, críticas, despeitos, invejas,
frustrações, ataques por vezes violentos, louvores por vezes desmedidos. Atirar
uma pedra no charco levanta sempre muitas ondas. Nas margens serenas do anonimato e da inércia algumas
plantas mais frágeis e delicadas vergam ao insólito do vendaval inesperado, por
desusado.»
Hoje, o Montijo tem um recinto, que custou cerca de 150 mil euros, capaz
para receber condignamente os mais diversos eventos, assim alcancem competência
os nossos autarcas.
Um dia, um Homem agigantou-se e a Montiagri ergueu-se.
Grande demais para alguns pigmeus que depois a tomaram.
Obrigado, senhor Acácio Artur Soeiro Dores.
A nossa simples homenagem no 1.º aniversário do seu
passamento.
Ruky Luky
terça-feira, 2 de setembro de 2014
D. Manuel I e o Montijo (4)
A Corte na Aldeia Galega do Ribatejo
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| Terá D. Manuel I aceitado o pedido de um pescador para ser juiz perpétuo do Círio dos Pescadores de Aldeia Galega do Ribatejo? |
O
Padre Manuel Frederico Ribeiro da Costa, Capelão que foi da Atalaia, no seu
livro “Narrativa Histórica da Imagem de Nossa Senhora da Atalaya que se venera
na capella sita no monte d’Atalaya do concelho de Aldeagallega do Ribatejo”,
editado em 1887, ao reportar-se ao Círio dos Pescadores de Aldeagallega, narra
o seguinte episódio:
«A origem deste círio remonta aos tempos
do reinado de D. Manuel, segundo antiquíssima tradição que voga entre os
pescadores desta vila.
Contam eles – com alguma ufania – que,
aportando o rei D. Manoel e seu séquito em uma galeota ao porto desta vila, com
o intuito de uma excursão ao Alentejo, sucedera por motivo da vazante da maré,
dar em seco a régia embarcação e achar-se nessa ocasião próximo um pescador
entregue à lida da sua arte.
Os régios viajantes, precisando
desembaraçarem-se deste inesperado encalhe, chamaram o pescador a fim de os
transportar para terra.»
Segundo
a tradição guardada pelo capelão da Atalaia, o pescador transportou o rei às
costas e quando o monarca lhe perguntou quanto queria em remuneração pelo seu
serviço terá respondido: «que o maior benefício que el-rei lhe podia dispensar
era ser juiz perpétuo do círio dos pescadores de Nossa Senhora da Atalaia, sua
terra».
O
Padre Manuel Frederico Ribeiro da Costa sustentou que não tinha dúvidas de que
D. Manuel I fora juiz perpétuo dos Cirio dos Pescadores de Aldegalega,
escorando-se nos seguintes factos: a) A existência, na sacristia da Igreja da
Atalaia, de uma caixa do círio dos pescadores com o rótulo “S.º D. N. S. DaTa
El-Rei D. Manoel juiz Propria. D. festa Dos Pescadores Dalda Ga e
todos mas Res 1534”; b) A antiga prática da Câmara de Aldegalega de satisfazer
a esmola do sermão da festa do mesmo círio, devido à vontade expressa de D.
Manuel, ou em homenagem a tão pia tradição; c) O uso muito antigo de se
inscrever e ler-se, na ocasião da festividade, na eleição dos mordomos
festeiros, como juiz perpétuo, o nome do monarca reinante; e c) A bandeira real
do círio, que indicia uma vetusta protecção régia.
Mas
serão estas razões suficientes para provarem que o Rei Venturoso passou por
Aldegalega do Ribatejo e correspondendo ao pedido de um pescador aceitou ser
Juiz perpétuo do Círio dos Pescadores de Aldegalega?
O
Capelão da Atalaia socorre-se de «antiquíssima tradição» para evocar a passagem
de D. Manuel por terras aldeanas, mas só pôde afiançar que não tinha dúvidas de
que D. Manuel I fora juiz perpétuo dos Cirio dos Pescadores de Aldegalega, embora
reconhecesse que «a origem (do Círio dos Pescadores) remonta aos tempos de D.
Manuel, ou que já no reinado de D. Manuel concorria este círio à Atalaia.»
Contudo
não há documentos que provem a passagem do rei por terras de Aldeia Galega do
Ribatejo.
Se
consultarmos a itinerância do rei, durante o seu reinado, podemos confirmar que
em 1496 passou por Alcochete; em 1500 por Alcácer e Setúbal; em 1508, voltou a
passar por Alcochete; e naquele ano e no ano seguinte esteve em Évora. Em Évora
se regista a passagem do monarca nos anos de 1512, 1513, 1519 e 1521, e neste
ano passou também pelo Barreiro. A real itinerância não regista a passagem por
Aldeia Galega do Ribatejo.
Mas
como Aldeia Galega do Ribatejo era na altura renomado porto de acesso ao sul do
País para quem viesse de Lisboa poderá indiciar a passagem do monarca numa das
suas deslocações ao Alentejo, embora não haja regsitos.
Mero
indício, que a tradição afirma, mas a História não confirma.
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| Membros da ilustre família Cotrim descansam eternamente na Ermida de Nossa Senhora da Piedade, em Sarilhos Grandes. |
Mas
a “presença” de El-Rei, em Aldeia Galega do Ribatejo, é revelada por outros
testemunhos.
Um
será a outorga do foral, em 15 de Setembro de 1514, os outros apontam para a
presença de fidalgos da sua Casa, nomeadamente, da ilustre família Cotrim, em
terras aldeanas.
Em
Sarilhos Grandes, adossada à Igreja de S. Jorge, existe uma capela funerária
manuelina mandada edificar por João Cotrim, no início do séc. XVI.
Presume-se
que o Doutor João Cotrim seja filho de Ruy Cotrim de
Castanheda.
Esclarece
Joaquim Baldrico que o «Doutor João Cotrim (foi) personagem importante no
reinado do Rei Venturoso, uma vez que, entre os vários cargos que desempenhou,
foi Corregedor dos Feitos Crimes da Corte, Desembargador do Agravo da Casa da
Suplicação e membro da Comissão de Revisão das Ordenações e da reforma dos
Forais.»
Ruy
Cotrim de Castanheda, fidalgo da Casa de D. Manuel, pelejou no Norte de África,
foi capitão das armadas de Vasco da Gama e de Pedro Álvares Cabral, à Índia, e
uchão da Casa Real.
No
interior da Ermida de Nossa Senhora da Piedade, assim se denomina a capela, há duas
sepulturas: uma com inscrições imperceptíveis e a outra, diante do altar, que atesta
a importância da personalidade, com uma inscrição em letra gótica. Aquela será
a sepultura do Doutor João Cotrim, esta certifica que:
«AQVI
IAS RUY CUTRIM DE CASTANHEIRA FIDALGO DA CASA DE ELREI DÕ MANVEL I».
Estes
ilustres fidalgos escolheram Aldeia Galega do Ribatejo para o seu descanso
eterno.
Gente
ilustre que participou na gesta dos Descobrimentos e na Administração Manuelina
está entre nós, enriquecendo-nos com o seu legado.
Mas Montijo
revela-se tão pobre que não alcança a grandeza de tal presença.
Ruky Luky
P.S. Um outro Cotrim jaz na Igreja de S. Jorge (sarilhos Grandes), mas será
tema para uma futura publicação.
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
D. Manuel I e o Montijo (3)
Montijo Visto Pelo Foral de 1514
É
Aldeia Galega do Ribatejo, que, em 1930, mudou o nome para Montijo, povoação
antiquíssima, cujos registos remontam ao séc. XIII.
O
concelho pertenceu à Ordem de Santiago de Espada, cuja sede se localizou em
Palmela, e ganhou real autonomia, em 11 de Janeiro de 1540, quando o Mestre da
Ordem confirmou a separação de Aldeia Galega de Alcochete e se pôs termo ao
concelho de Sabonha.
Ao longo da sua História, Aldeia Galega recebeu várias
prerrogativas reais e, em 14 de Setembro de 1514, D. Manuel I, O Venturoso, concedeu-lhe
Foral.
Foral ou Carta de Foral é um diploma dado pelo rei, ou por um senhorio
laico ou eclesiástico, a determinada terra, contendo normas que disciplinam as
relações dos seus povoadores ou habitantes entre si e destes com a entidade
outorgante.
Diz Francisco Ribeiro da Silva que «Uma leitura rápida
dos forais leva facilmente à ideia de que os beneficiários dos tributos eram o
rei, a igreja, os senhorios laicos ou eclesiásticos a quem o rei outrora fizera
doação. Raramente são os concelhos, o que mais uma vez e até certo ponto
contraria a ideia feita, mas não verdadeira, de que os forais foram dados em
favor dos municípios ou do municipalismo.»
O Foral que D. Manuel I outorgou a Aldeia Galega
do Ribatejo é um documento onde se fixam
os direitos
e os tributos a pagar ao(s) senhorio(s), mas também as
isenções e privilégios, e, concomitantemente, se regularizam, sobretudo, as estalagens, os
transportes e as portagens - passagem e venda de mercadorias.
A primeva Aldeia Galega era, essencialmente, uma
povoação rural, cujo núcleo principal se localizava a oriente da vila, onde se
edificou a Igreja de S. Sebastião, primeira Igreja do concelho.
No rio que a banhava, Aldeia Galega procurava o
peixe, o sal e a força motriz para mover os moinhos, que demonstram a intensa
actividade moaogeira da localidade.
No século XIV, estava construído o porto novo de
Aldeia Galega, que passou a concorrer com os portos de Alhos Vedros e do Barreiro e se transformou,
paulatinamente, na principal porta de acesso a Lisboa e passagem obrigatória
para quem demandasse o sul do País ou o estrangeiro.
A vila, até então rural por excelência,
descobria no rio um novo pólo de desenvolvimento, baseado no transporte
de gentes e mercadorias. Quando lhe foi outorgado foral, Aldeia galega corria
em direcção rio, sem ter abandonado o campo.
O intenso movimento de pesssoas e de bens
originou o estabelecimento de estalagens e o desenvolvimento dos transportes de
pessoas e mercadorias, que não escaparam à atenção dos inquiridores que o Rei enviara
a Aldeia Galega, assim como a «todollos lugares do Reyno».
O Foral liberalizou o estabelecimento de estalagens e proibiu, por um lado, «que no ditto lugar (Aldeia Galega)nam haja estalagem privilligiada
assy da ordem como do conselho», e, por outro, autorizou que qualquer pessoa pudesse hospedar
em sua casa e dar cama e de comer a «quaisquer
pessoas, assim de graça como por dinheiro, assim de noite como de dia».
Quanto às bestas, em que as pessoas se faziam
transportar assim como os seus bens, tinham de, em primeiro lugar, permanecer
na estalagem, mas «quando na ditta estalagem não
poderem bem caber as bestas declaramos que se possam por aquella vez agasalhar onde quiserem
assy de graça como
por dinheyro».
De
tal modo se desenvolveram as estalagens que, no século XVIII, as estalagens de
Aldeia Galega do Ribatejo ainda eram consideradas das melhores do País.
A
postura municipl, que regulava a «barca
da carreira», não era respeitada, reinando assim uma forte indisciplina no
que concerne ao cumprimento de horários e à prática de preços, causando a «desordenança das barcas» muitos
transtornos e despesas aos passageiros
Por isso, o Foral determinou o
cumprimento da dita postura e que o «barco da carreira» observasse os horários,
quer houvesse muitos ou poucos passageiros, não podendo ser alterados os
horários e os preços em função do número de passageiros e/ou de mercadorias a
transportar.
À hora (maré) prevista, os barqueiros
eram obrigados a partir, a «tanger o búzio e a cumprir todos os costumes e
obrigações da dita passagem.»
Porém, se a «barca de carreira não pudesse levar
mais gente nem cousas», e aproveitando a mesma maré, era permitido ao barqueiro
da barca seguinte negociar livremente o preço da passagem e do transporte de
mercadorias, mas, caso as partes não alcançassem acordo, caberia aos juizes
ordenarem que partisse logo que houvesse maré de feição, pagando-lhe «por toda viagem daquella vez duzentos reaes somente
sem mais outra nenhuma cousa por ora seja cõ muytos ou com poucos
(passageiros e mercadorias)».
Além de densificar a postura municpal, o Foral estabeleceu um regime sancionatório para os
barqueiros e arrais incumpridores, sujeitando-os a uma multa de dez cruzados pela
violação do horário e dos preços.
A importância de Aldeia Galega como porto principal
para a ligação da capital do Reino ao sul do País e ao estrangeiro acabou por
ser confirmada e ganhou acrescida projecção quando o Correio-Mor, Luís Afonso,
estabeleceu ali a Posta, carreira de Correios para o sul do país e para a
fronteira espanhola, em 1533.
Na actualidade, olhando-se para a época em que o Foral lhe foi
atribuído, alcança-se Aldeia Galega do Ribatejo como um importante entreposto
comercial. Ali aportavam as mais desvairadas gentes, ali comerciavam, ali
pernoitavam, dali partiam para outras paragens com as suas mercadorias,
sobretudo para a capital do Reino, que se animava com a empresa dos Descobrimentos, apesar da
peste que, por vezes, a assolava. Não havia uma feira em Aldegalega, mas tão-só
um agitado e intenso comércio.
O
exame minucioso das mercadorias e das pessoas que deviam ou não pagar portagem, das que estavam isentas e das
condições que fundamentavam essa isenção acaba por ocupar substancialmente o
conteúdo do foral. Mas não é tema que seja por
ora e aqui abordado.
Que
bens e pessoas se transicionavam em Aldeia Galega do Ribatejo, alguns dos quais
se destinavam ao abastecimento das naus que «davam novos mundo ao mundo»?
Através
das taxas de portagens previstas no foral
é possível identificá-los:
Pão, vinho, sal, fruta verde, hortaliça,
legumes, pescado, marisco, queijos secos, manteiga salgada, trigo, centeio, cevada,
milho, painço, linhaça, aveia, vinagre, melões, queijadas, biscoitos, farelos, castanhas e
nozes verdes e secas, ameixas passadas, amêndoas, pinhões por britar, avelãs,
boletas, mostarda, lentilhas, legumes secos,
cebolas secas, alhos, sumagre1, azeite, mel, unto.
Especiarias, boticarias, tinturas
e afins.
Panos de lã, linho, seda
e algodão.
Couros curtidos ou por curtir, calçado,
peles de
coelho ou cordeiro e de qualquer outra pelitaria.
Cera e cevo.
Prata
lavrada, aço,
estanho, ferro, telha e tijolo, louça
de barro, vidrada ou não, objectos de pedra, de barro e de
pau.
Objectos feitos de esparto, palma ou
junco. Vassouras
Erva,
vides, canas, carqueja, tojo, palha e lenha.
Pez, resina,
breu, alcatrão, cal e sabão.
Escravo ou
escrava ainda que seja parida.
Estas eram as principais
mercadorias à disposição dos nossos avoengos, embora nos choque, hoje, considerar uma pessoa (escravo) mercadoria.
A pesca, ao contrário do que poderíamos
presumir nos nossos dias, não é
assunto substantivo do Foral, indiciando que não terá sido a actividade
principal ou única de quem a ela se dedicava.
O
Foral não se refere aos pescadores e nele encontrámos um único parágrafo referente
ao pescado, que assim determina: «Paguaze do pescado sua dizema e dr.to ordenado, cõ
declaração que do que tomarem para comer não pagarão se não dizema a D's e do
que tomarem cõ rede pee aynda que seja ia pera vender pagarão soomente a dizema
velha e não a nova. E do que tomarem aa fisga, ou aa mãao nam paguaram dr.to
Quando os pescadores sayrem, cõ o seu pescado fresco em terra averão delle seu
conduto por aquelle dia que ouverem hy de repousar sem delle pagarem dizema.»
Isto é, o pescado estava sujeito à dízima, que
consistiria em 10% do valor do pescado. Porém, «do que (os pescadores) tomarem
para comer não pagarão senão se não dizema a
D's». A dízima a Deus valia 8,3% do pescado, ou seja, por cada doze peixes, um
era para a Igreja.
«Dízima velha e não a nova» pagariam os
que pescassem com rede-pé (rede de arrastar), ainda que fosse para vender.
Seguindo
Francisco Ribeiro da Silva, a dízima velha do
pescado trazido às terras da Ordem de Santiago por pescadores residentes nas
áreas da mesma Ordem pertencia à dita Ordem; a dízima nova era paga ao rei.
Aldeia Galega do Ribatejo só estava sujeita à
dízima velha, ao contrário de outras localidades em que todo o peixe pescado estava
sujeito a uma dupla dízima: a dízima velha e a dízima nova, no montante de cerca
de 20%.
Quem pescasse com
meios rudimentares, “à fisga ou à mão (cana
ou linha) “estava isento de dízima”.
Por fim, o Foral
estabelece que «Quando os pescadores
sayrem, cõ o seu pescado fresco em terra averão delle seu conduto por aquelle dia que ouverem hy de repousar sem delle
pagarem dizema.»
Conduto era o privilégio pelo qual os mestres dos navios e os
pescadores eram autorizados a retirar do pescado fresco, que trouxessem para
vender, uma porção para a sua alimentação de cada dia, de acordo com o número
de pessoas que viessem no navio.
O pescado estava ainda sujeito à
taxa de portagem a pagar por «homens de fora
della que hy trouxerem cousas de fora a vender ou as comprarem hi e tirarem para fora da Villa e termo», nomeadamente,
pescado e marisco.
No
século XVI, o rio assumiu importância fundamental para o desenvolvimento de
Aldeia Galega do Ribatejo, cuja localização a tornou uma porta privilegiada de
acesso à capital, com reflexos benignos no desenvolvimento dos transportes, das
estalagens e do comércio, e disto nos dá conta o Foral de 15 de Setembro de
1514.
Ao lado de uma
comunidade rural, «os homens trabalhadores», afirmava-se uma outra, a dos
mareantes. Esta construiu a Capela de Nossa Senhora da Conceição, na Igreja do
Divino Espírito Santo, em 1575; aquela instituiu, no mesmo templo, a Capela de
Nossa Senhora da Purificação, em 1607.
Assim
se ergueu Montijo.
(1) - Sumagre – Arbusto cujas folhas e casca eram utilizadas no curtimento de couros
e peles e como tintureira na indústria
têxtil. Pode também ser usado como condimento, extraído dos frutos.
Ruky Luky
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