sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Bombeiros Voluntários de Montijo

Como tudo começou…


D. João I, através da Carta Régia de 23 de Agosto de 1395, tomou a primeira iniciativa de promulgar a organização do primeiro Serviço de Incêndios de Lisboa, ordenando que: "...em caso que se algum fogo levantas-se, o que Deus não queria, que todos os carpinteiros e calafates venham àquele lugar, cada um com seu machado, para haverem de atalhar o dito fogo. E que outros sim todas as mulheres que ao dito fogo acudirem, tragam cada uma seu cântaro ou pote para acarretar água para apagar o dito fogo".
Embora, no reinado de D. João V, tivesse sido fundada, no Porto, a Companhia do Fogo ou Companhia da Bomba, constituída por 100 "homens práticos", capazes de manobrarem a "Bomba, machados e fouces", e, em 17 de Julho de 1834, a primeira Companhia de Bombeiros de Lisboa, instituída pela Câmara Municipal, só mais tarde se encontrarão referências a Aldegalega do Ribatejo.
Foto: Atrelado para combater incêndios da antiga fábrica Mundet (Montijo), espólio dos BVM.

Em 31 de Agosto de 1842, a Câmara Municipal de Aldegalega aprovou uma postura que regulamentava o combate ao fogo.
Nos termos da Postura, a Companhia do Cais passava a ser responsável pelo combate aos incêndios, mas «sendo unicamente a villa fornecida de água por carros com pipas, ficarão de ora em diante os donos destes obrigados a terem as mesmas pipas cheias de água e a acudirem em qualquer incêndio quando se manifeste de quaisquer sinais das igrejas ou cadeia desta vila» (edifícios onde estavam instalados os sinos).
A Postura estabelecia um sistema de gratificação para «o condutor da primeira pipa que conduzir esta cheia de água ao ponto de incêndio», que recebia de gratificação a aquantia de 800$00 (oitocentos reis), mas sancionava «todos os donos de pipas de fornecimento de água por cada uma das vezes que faltarem seus carros com pipas cheias de água» com a multa de 5.00$0 (cinco mil reis) e «todos os donos das pipas que não conservarem em todas as noites as pipas cheias (pagavam) por cada uma das vezes que de noite lhe for encontrada a pipa vazia 1.000$0 (mil reis). Para manter um sistema eficaz de vigilância, a câmara municipal pagava 500$00 reis ao zelador que denunciasse a infracção
Penas pesadas incidiam também sobre «todo o homem da Companhia do Cais por cada uma das vezes que (faltasse) a acudir a qualquer incêndio com os objectos de que (estava) encarregado», que pagava de multa 3.000,00 (três mil reis). O capataz que cometesse igual transgressão pagaria o dobro.
O cargo de Encarregado do Tratamento e Arranjo da Bomba, que fora adquirida em 1845 pela quantia de 144$000 (cento e quarenta e quatro mil reis), foi extinto em 1848, por necessidade de restrição de despesas, ficando o equipamento a cargo da Companhia Braçal do Cais.


No princípio do século XX, Aldegalega perorava pela falta de pessoas competentes para lidarem com o material de combate a incêndios, reconhecendo a edilidade a desorganização dos seus serviços nesse sector, e almejava pela constituição de uma Corporação de Bombeiros Municipais.
Por essa altura, em 25 de Maio de 1906, Cândido José Ventura, presidente da Sociedade Filarmónica 1.º de Dezembro, fez aprovar, em reunião da direcção, uma proposta visando a organização de uma  quermesse, cujo produto seria aplicado na constituição de um Corpo de Bombeiros Voluntários.
Nessa mesma noite, conta Cândido José Ventura,
«Falei com o Eugénio Borges Sacoto, para se encarregar de falar a pelo menos uns vinte rapazes operários, para constituir uma Corporação de Bombeiros Voluntários.
Logo no dia seguinte entregou-me uma lista (…).
Tinha já o pessoal, mas faltava tudo o mais.
Falei com o senhor Francisco da Silva que era então Presidente da Câmara, pedindo-lhe que consentisse que os Bombeiros se servissem do material da Câmara, o que da melhor vontade autorizou.
Oficiámos à Corporação Municipais de Lisboa, pedindo-lhes que mandasse aqui todos um domingos um técnico competente, para instruir o nosso pessoal, pois pagaríamos todas as despesas e a devida remuneração.
Veio um instrutor, que só exigiu que lhe pagasse as despesas, não aceitando remuneração alguma.
Os primeiros exercícios foram feitos na Praça dois Touros.
Depois do pessoal devidamente instruído, vieram dois técnicos para procederem ao seu exame.
Terminado este acto, os Examinadores declararam que o pessoal se achava habilitado para exercer bem o Mister de Bombeiros.
Com o pequeno recurso que a quermesse ia dando conseguimos comprar fardamentos, cinturões, machados, capacetes, mangueiras, escada de gancho e também mangueira de salvação.»


Em 7 de Março de 1908, a direcção da Sociedade Filarmónica 1.º de Dezembro decidiu «separar da Sociedade a Corporação dos Bombeiros Voluntários», passando a Corporação dos Bombeiros a reunir-se na casa do material de incêndios, com autorização da autarquia.
Foi então eleita uma direcção constituída por Francisco Feire Caria, Justiniano António Gouveia, Álvaro Valente, Joaquim dos Santos Oliveira e Cândido José Ventura.
Aprovados os estatutos, ganhou vida própria aquela que viria a ser a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Montijo.

Foto: Cândido José Ventura [5.11.1859 - 18.04.1953], a quem se deve a fundação da Corporação dos Bombeiros Voluntários de Montijo. 


Ruky Luky




















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