Sabe-se, hoje, que a decisão de deslocalização do cais para o Seixalinho foi tomada empiricamente, e, pela qualidade gelatinosa dos argumentos então aduzidos pelos principais “agentes da mudança”, alguns dos quais entraram no anedotário concelhio, alcança-se a presunção de que nem sequer a ideia da mudança estava maturada.
Surpreendidos pela força da erupção do debate popular, os políticos e autarcas socialistas fundamentaram assim, num primeiro momento, as razões da deslocalização:
O presidente da comissão política concelhia do Partido Socialista, José Bastos, aliou à deslocalização do cais para o Seixalinho as seguintes vantagens:
1. A transferência do Cais dos Vapores para o extremo poente da cidade, zona do Seixalinho, com um interface de qualidade, resolverá o grave problema do estacionamento com as seguintes vantagens: alarga-se o perímetro da cidade, que continua a ter aspecto de vila.
2. O parque de estacionamento do Cais dos Vapores ficará livre para quem nos vier visitar. No casco velho não estacionarão mais carros cujos proprietários vão apanhar o barco para Lisboa.
3. O interface do Seixalinho ligado à circular externa contribuirá para o desenvolvimento de uma zona de qualidade a Poente da cidade.
4. O facto de se tratar de um interface de interesse regional para servir vários concelhos poderá ser argumento para pedir ao governo que construa a circular externa.
5. Se os barcos ficarem no Cais do Seixalinho evita-se que os barcos com a forte ondulação que provocam continuem a destruir as salinas e provoquem o desaparecimento das mesmas.
6. Melhora a vida dos poucos pescadores profissionais que ainda existem, pois a forte ondulação prejudica a faina da pesca.
7. Um interface de qualidade a 20 minutos da baixa da capital poderá ser aproveitado para desenvolver o turismo do Concelho, porque «as pessoas que utilizam os barcos já têm tempo para tudo, até para fazerem compras, o que vem beneficiar o comércio local. É neste sentido que penso que a transferência dos barcos para o Seixalinho poderá, se bem aproveitada, trazer para o nosso concelho e para a nossa cidade um novo tipo de comércio baseado no turismo.»
8. A Câmara poderá publicitar os barcos noutras regiões em colaboração com a indústria hoteleira e com o comércio em geral e assim tornar o Concelho um ponto a ser visitado por turistas do País e do estrangeiro.
9. As despesas com o transporte de ida e volta para o Seixalinho têm de ser negociadas com a Transtejo entrando-se em conta os benefícios que esta empresa tem com a transferência do Cais.
10. Construção de um pontão para se constituir uma reserva de água na zona da Lançada e pôr caldeiras a funcionar e nunca mais haverá assoreamento do rio.
Por sua vez, o vereador Nuno Canta alegou:
1. É uma solução para resolver uma série de problemas de acessibilidades à cidade.
2. Aumenta a comodidade dos passageiros.
3. Incrementa melhorias nos transportes colectivos e diminui a utilização abusiva do automóvel particular.
4. O Laboratório Nacional de Engenharia Civil deverá avançar com um estudo para apurar dados sobre o assoreamento da cala junto ao Cais dos Vapores.
5. Vai permitir fortificar as margens do rio e construir uma grande avenida marginal, com um largo passeio pedestre, ao longo da cidade.
6. Evita a extinção dos barcos, como já aconteceu com Alcochete.
7. O movimento das ondas do catamarã é responsável pela derrocada dos muretes de sustentação das salinas.
Quando participou no debate, a presidente da Câmara Municipal de Montijo, Maria Amélia Antunes, propugnou:
1. A transferência do Cais dos Vapores para o Cais do Seixalinho é uma medida estruturante.
2. Resolve os problemas do estacionamento, do tratamento da zona ribeirinha e suas edificações, dos acessos mais qualitativos para Lisboa e o problema do trânsito no interior da Cidade.
3. Possibilita a deslocação da actual estação de camionagem junto do Mercado Central para uma zona terminal que dê melhores vantagens aos passageiros dos transportes colectivos.
4. O Cais dos Vapores será destinado a zona de lazer, com uma escola de aprendizagem de vela e desportos náuticos.
5. Trará melhor qualidade de vida para os montijenses.
6. Há muita gente das freguesias do concelho e de locais como o Pinhal Novo, Moita, Alcochete e até Vendas Novas que se desloca ao Montijo para apanhar o barco para Lisboa. Para essas pessoas é mais fácil seguirem para o Cais do Seixalinho, já que não entram no centro da cidade onde há mais trânsito.
Bem avisado andava o aldeano de boa têmpera, o senhor César Ventura, quando escreveu que:
«(Deslocalizar o cais para o Seixalinho) será destroçar o povo do Montijo, tirando-lhe a comodidade que tem há mais de 100 anos: possuir carreiras, pode dizer-se, dentro de casa. Seria destroçar o resto do pouco comércio que ainda existe na Rua da Ponte, na Praça da República e todas as ruas em volta; seria pôr o rio inavegável junto à Ponte, com os lodos a aumentarem arrasando a cala. Não nos tirem os catamarãs a poucos minutos das nossas casas. Hoje vêm centenas de turistas visitar-nos devido à localização da gare; se fosse no Seixalinho não vinha um. Poucas cidades do mundo têm tal privilégio de ter o cais “dentro de casa”. Ir seria o último golpe para o descalabro e para a ruína da cidade de Montijo.»
Nenhum comentário:
Postar um comentário